Tom Hooper volta a territórios musicais neste adaptação do clássico sucesso da Broadway, com mais felinos debaixo dos holofotes –  “Cats”.

Começarei este meu artigo de opinião com uma verdade inegável: Tom Hooper é um excelente realizador. Pode não ser um dos nomes mais mainstream, porém quem já viuO Discurso do Rei (2010), A Rapariga Dinamarquesa (2015) ou Maldito United(2009) sabe as aptidões de Hooper em oferecer excelentes filmes. 

Depois da sua aventura bem sucedida na adaptação do musical Os Miseráveis (2012) para o grande ecrã, Hooper volta agora a territórios musicais, que apesar de menos dramáticos, são  igualmente reconhecíveis. 

Falamos, portanto, de “Cats”, um musical da Broadway composto por Andrew Lloyd  Webber. Conhecido pela sua duração em cena e pelo quantidade monumental de personagens, “Cats” conta a história de um bando de gatos, chamados de Jellicles, reúnem-se uma vez por ano quando, altura em que o Velho Deuteronomy (Judi Dench) escolherá um dos gatos para ascender ao Heaviside Layer e ter uma nova vida. 

Entre os candidatos para ascender este ano encontramos a desastrada Jennyanydots (Rebel Wilson), o comilão Bustopher Jones (James Corden), o engatatão Rum Tum Tugger (Jason Derulo) ou o mágico e malvado Macavity (Idris Elba). 

Vamos primeiramente falar dos efeitos visuais, claramente a parte mais evidente e talvez a mais trabalhosa no processo de fazer este filme. 

Ver Também:“Parasitas”- Um Estudo Sobre Classes

Acima de tudo, é impressionante o que eles conseguiram fazer utilizando efeitos visuais. Tanto nas personagens como nos cenários, tudo transporta uma tonalidade de fantasia, de fábula. Apesar de nem sempre ser convincente, especialmente no que toca a sobreposição da face dos actores em corpos de animais, é inegável o trabalho moroso, meticuloso e, ao fim e ao cabo, bem executado que a equipa conseguiu produzir.

A banda-sonora é também outro elemento que se deve destacar. Sendo um musical totalmente assente em música, com poucas frases a ser faladas, grande parte da atenção recai sobre as músicas que preenchem o filme. Com alguns retoques na roupagem, todas as músicas são retiradas do espetáculo da Broadway e farão a delícia aos fãs do mesmo. 

É, de certa forma, confuso e absurdo…

No que toca a representações, não há muito a dizer. Todos os actores estão bem no seu papel, com especial destaque para Idris Elba que se nota a léguas de distância que se está a divertir à brava no papel do vilão Macavity. 

Infelizmente, a coisa começa a descambar pelo aspecto cénico – nada faz sentido. A verdade é que em “Cats” nós entramos no mundo dos gatos, o que altera a nossa percepção sobre o tamanho do que está em redor das personagens. Porém, o cenário e objectos (e alguns animais) não seguem a mesma linha lógica de tamanhos. Aqui, um simples dado chega a ser 3 vezes maior que um rato ou que uma barata, e algum cenário é humano e o seguinte é construído tendo em conta as dimensões dos gatos. É, de certa forma, confuso e absurdo. 

Porém, o enredo simples funciona bem num ambiente de espetáculo ao vivo, em que é mais interessante ver a produção. Assim sendo, depressa ficamos fascinados com o desfilar de talento em cima do palco. No caso da produção cinematográfica de “Cats” as coisas já não correm tanto a seu favor…

A história em cima tem pouco sumo para se espremer. Logo, para que mantenha o espectador interessado é necessário fornecer personagens interessantes, aos quais o espectador se possa apegar. 

“Cats” poderia ser bem mais do que aquilo que é…

Porém, nenhuma das personagens é devidamente aprofundada, sendo tudo dito para o espectador por músicas que introduzem e falam sobre a personagem e nada mais. Em “Cats”, os gatos cantam muito e fazem pouco, tornando-se enfadonho para a audiência quando começam a cantar a 7ª música sobre uma personagem à qual não iremos ter o mínimo de ligação excepto saber o nome, de onde vem e 2 ou 3 adjectivos sobre a mesma. 

Basicamente, “Cats” é composto por esta fórmula repetida para quase todas as personagens num espaço de 100 minutos. Não é, de todo, uma forma apelativa de cativar o espectador. 

Isto resulta ao vivo porque o número musical grandioso tem um certo brilho de realismo. Aqui, com toda a magia do cinema por trás, fica sempre a ideia de que não há nada que nos deixe maravilhados.

Um musical felpudo mas sem quaisquer garra(s)…

Para além de tudo, o humor não resulta em nenhum sentido, chegando a roçar o irritante – especialmente vindo de Rebel Wilson e de James Corden. Apenas faz com que se prolongue a angústia de vermos o filme a tentar chegar a algum porto.  

No fundo, “Cats” poderia ser bem mais do que aquilo que é. Com toda a carga histórica que advém desta adaptação, a verdade é que apenas conseguiram fazer um filme esquecível. Pode fazer as delícias aos fãs, mas para mim, como mero espectador, não passa de um musical felpudo mas sem quaisquer garra(s).